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A Fuga de Wang-Fô

 

 

     

O velho pintor Wang-Fô e o seu discípulo Ling andavam pelas estradas do reino dos Han. O reino dos Han: era o nome por que naquele tempo era conhecida a grande China. Ninguém pintava melhor que Wang-Fô as montanhas a sair do nevoeiro, os lagos sobrevoados pelas libelinhas, e as enormes vagas do Pacífico vistas a partir da costa. Dizia-se que as suas imagens santas atendiam imediatamente qualquer prece; sempre que ele pintava um cavalo, tinha que o mostrar preso a uma estaca ou seguro pelas rédeas, pois se assim não fosse o cavalo escapava-se do quadro, a galope, e nunca mais ninguém lhe punha a vista em cima. Os ladrões não se atreviam a entrar em casa de quem possuísse um cão-de-guarda pintado por Wang-Fô.

Wang-Fô poderia ter sido rico, mas gostava mais de dar que de vender. Distribuía as pinturas que fazia por quem as apreciasse verdadeiramente, ou então trocava-as por uma tigela de comida. [...]

Ling, a troco das lições, tinha com ele todos os cuidados que um discípulo deve ter com o mestre. Mendigava arroz quando nenhum deles tinha moedinhas de prata; e, quando as pessoas eram demasiado avarentas para darem, ele roubava. Massajava à noite os pés cansados do velho, e de manhã levanta-se muito cedo para ir procurar nas cercanias uma paisagem que o mestre gostasse de pintar.

Uma tarde, ao pôr do sol, chegaram aos subúrbios da capital, e Ling arranjou uma estalagem onde Wang-Fô pudesse passar a noite. [...] De madrugada, ressoaram pesados passos nos corredores, e atrás deles ordens gritadas numa língua bárbara. Ling estremeceu, lembrando-se de que na véspera roubara um bolo para a refeição do mestre. Certo de que o vinham prender, perguntou aos seus botões quem é que iria ajudar o velho a passar a vau o próximo rio.

Os soldados entraram com lanternas. A chama que se filtrava através do papel multicolor punha nos seus rostos reflexos encarnados, amarelos e azuis. Rugiam como animais ferozes e a corda dos seus arcos vibrava a cada grito. Um deles pousou a mão com rudeza na nuca de Wang-Fô, que não podia deixar de admirar os bordados dos seus mantos.

Amparado pelo discípulo, Wang-Fô seguiu-os cambaleando através das estradas aos altos e baixos. [...]

Chegaram à entrada do palácio imperial. As paredes violetas insinuavam em pleno dia um tom crepuscular. Os soldados obrigaram Wanf-Fô a atravessar salas redondas ou quadradas cujas formas simbolizavam as estações, os pontos cardeais, a lua e o sol, a longevidade e a Omnipotência. As portas giravam sobre si próprias emitindo notas musicais e o seu encadeamento era de forma a permitir que quem atravessasse o palácio do nascer ao pôr do sol ouvisse a escala toda. Por fim, o silêncio tornou-se tão grande que mal se ousava respirar; um escravo soergueu um reposteiro, e o pequeno grupo entrou na sala onde reinava o Filho do Céu.

Era um imenso aposento sustentado apenas por grossíssimas colunas de pedras azuis. Desabrochava a toda a volta um jardim, e cada flor dos seus bosques pertencia a uma espécie rara vinda do outro lado dos oceanos. [...]

O Mestre Celeste estava sentado num trono de jade, e, cobertas de rugas, as mãos dele assemelhavam-se às dum ancião, se bem que ele ainda mal tivesse vinte anos. Como os seus cortesãos, de pé junto às colunas, estendiam o ouvido para não perder a mais pequena sílaba saída dos seus lábios, ele tinha-se habituado a falar sempre em voz baixa.

- Dragão Celeste, disse Wang-Fô prosternado, sou velho, sou pobre, sou fraco. Tu és como o Verão ; eu sou como o Inverno. Tu tens Dez Mil Vidas; eu tenho apenas uma, e que vai acabar. Que mal é que eu te fiz? Ataram as minhas mãos, que nunca te causaram nenhum dano.

[...]

- Perguntas-me o que é que me fizeste, velho Wang-Fô? recomeçou o Imperador inclinando o pescoço encarquilhado para o velho que o ouvia. Vou dizer-to. O meu pai reuniu uma colecção de pinturas tuas no fundo do palácio, e foi nessas imensas salas que eu fui criado, velho Wang-Fô, porque não me deixavam sair, com medo de que ver os infelizes me afligisse o espírito ou agitasse o coração. [...] De noite, quando não conseguia dormir, ficava a olhar para os teus quadros, e, durante dez anos, não houve uma só noite em que eu os não tenha contemplado. [...] Mentiste-me, Wang-Fô, velho aldrabão: o reino de Han não é o mais maravilhoso dos reinos e não sou eu o Imperador. O único império onde vale a pena reinar é aquele onde tu entras, velho Wang, pelo caminho das Mil Curvas e das Dez Mil Cores. [...] E, para te fechar na única prisão de onde não poderás sair, decidi queimar-te os olhos, já que os teus olhos são as duas portas mágicas por onde tu penetras no teu reino. E, já que as tuas mãos são as duas estradas de dez ramificações que vão até ao coração do teu império, também decidi cortar-te as mãos. Percebes tu agora, velho Wang-Fô?

Ouvindo esta sentença, o discípulo Ling arrancou da cintura uma faca amolgada e precipitou-se sobre o Imperador. Dois guardas sustiveram-no. O Filho do Céu sorriu e acrescentou com um suspiro:

- Também te odeio, velho Wang-Fô, por te saberes fazer amar. Matem esse maltrapilho.

Ling deu um salto para a frente, afim de evitar que o sangue manchasse a roupa do seu mestre. Um carrasco decapitou-o com um sabre. [...]

O Imperador fez um sinal, e dois escravos enxugaram os olhos de Wang-Fô.

- Ouve, velho Wang-Fô, disse o Imperador, e pára de chorar, porque não é este o momento mais apropriado. Há na minha colecção das tuas obras um quadro admirável onde as montanhas, o estuário dum rio e o mar se reflectem, é claro que infinitamente reduzidos, mas com uma intensidade que ultrapassa a dos próprios objectos, como as figuras reflectidas na superfície duma esfera. Mas não terminaste esse quadro, Wang-Fô, e eu quero que consagres as horas de luz que te restam a acabar a tua obra-prima. É este o meu projecto, velho Wang-Fô, e posso obrigar-te a levá-lo a cabo. [...]

A um sinal do dedo mindinho do Imperador, dois escravos trouxeram respeitosamente o quadro inacabado onde Wang-Fô tinha esboçado a imagem do mar e do céu.[...]

Wang-Fô começou por tingir de cor-de-rosa a extremidade duma nuvem pousada numa montanha. Depois, acrescentou à superfície do mar uma pequena ondulação que tornou ainda mais profunda a sua calma. Estranhamente, o pavimento de jade começara a ficar húmido, mas Wang-Fô, completamente absorvido pelo quadro, não dava conta de que já estava a trabalhar com os pés na água.

O frágil escaler, encorpado pelas pinceladas do pintor, ocupava agora todo o primeiro plano do rolo de seda. Um ruído de remos ergueu-se de repente na distância [...]. Aproximou-se, encheu a sala toda [...]. Com a água a dar-lhes pelos ombros, os cortesãos, paralisados pela etiqueta, erguiam-se nas pontas dos pés. A água por fim atingiu o nível do coração imperial. [...]

Era mesmo Ling. Trazia a roupa de todos os dias [...] Mas à volta do pescoço trazia um estranho lenço encarnado.

 

Sem deixar de pintar, Wang-Fô disse-lhe docemente:

- Julgava-te morto.

- Estando o Mestre vivo, disse Ling cheio de respeito, como é que eu poderia ter morrido?

E ajudou o mestre a subir para o barco. [...]

- [...] Vamos embora, Mestre, para o lado de lá das ondas.

- Vamos, disse o velho pintor.

Wang-Fô tomou conta do leme, e Ling debruçou-se sobre os remos. [...]

Finalmente o barco contornou um rochedo que fechava a entrada do mar alto; a esteira extinguiu-se na superfície deserta, e o pintor Wang-Fô e o seu discípulo Ling desapareceram para sempre sobre aquele mar de jade azul que Wang-Fô tinha acabado de inventar.

 

 

 

Texto adaptado de: 

Marguerite Yourcenar, A Fuga de Wang-Fô, Ilustrado por Georges Lemoine, Tradução de Luís Miguel Nava, 2ª Ed., Contexto Editora, Lisboa, 1998 [texto adaptado].

Imagens da autoria de:

Amy, retiradas de http://www.soltec.net/~amyy/artwork/movies/